domingo, maio 27, 2007

domingo de chuva

Raimundo Y Madrazo
...

Maria del Mar olhava pela janela do seu quarto o movimento da calle de San Justo. Era domingo e as senhoras da alta sociedade de Madrid entravam, uma a uma, na Basilica de San Miguel para a eucaristia dominical.

Maria del Mar observava desde pequena aquele ritual. Gostava de ver as lindas mantilhas de renda e sonhava um dia passear-se também ela pelas escadas da Basílica.

Aos quarenta e um anos orgulhava-se de si e do seu reflexo no espelho de Veneza que tinha na parede do toucador. Herdeira dos bens de seu pai, após a morte da sua segunda mulher, Maria del Mar não se privava de cousa alguma. Vestia-se nos melhores costureiros de Madrid, perfumava-se com as melhores essências que chegavam de Paris, e que encontrava em Santa Maria Novella, na Calle Almirante, e posava todas as tardes no café Gijóm, onde paravam os intelectuais da primeira década do novo século.

Maria era a única aristocrata que frequentava cafés em Madrid. As mulheres invejavam-lhe a delicadeza dos gestos. Os homens invejavam-lhe a intimidade. Lutavam pela sua atenção, por se exibirem e por lhe declamar os mais belos poemas de amor. Maria olhava entediada para a sua chávena de chá, nela vendo a tristeza do seu destino, da sua solidão e começava a achar-se infeliz.

Em casa, contemplava o quadro que a imortalizara. Pintado por Modigliani em Paris, Maria escondia a tela dos olhos dos visitantes. A nudez que transpunha, lembrava a Maria a loucura que vivera em Paris, quando tinha vinte e três anos. Ocultando a todos a sua origem aristocrata, tinha-se entregue aos braços viris de artistas e pintores. Fora devorada com uma fome que nunca antes sentira e sentiu-se amada, cada dia por um homem, por um corpo, por um odor. Os mistérios do amor desvendavam-se, dia para dia, e Paris tornava-se para ela a cidade do amor e da felicidade.

Três anos foi o tempo que Maria viveu na cidade do Moulin, em Plena Belle Epoque, até ser forçada a regressar à cinzenta Madrid. A morte de seu pai, e a ausência de mais herdeiros, tornavam-na uma mulher rica, jovem e cobiçada.

Os anos passaram e Maria via-se presa pelos deveres da sua classe, dos compromissos que seu pai lhe deixara e pela felicidade que deixara em Paris.

Era Domingo e chovia. Maria vestiu o seu casaco de xadrês vermelho, desceu as estreitas escadas de madeira do nº 2 da Calle de San Justo e entrou discretamente na Basílica de San Miguel.

Dizem que foi encontrada morta no chão de seu quarto, envenenada, uma semana depois. Os médicos falaram em suicídio. Convido o leitor a espreitá-la, pela última vez, no quadro de Madrazo. Olhem como era graciosa..

4 Comments:

At maio 27, 2007 9:14 p.m., Anonymous Anónimo said...

Bom, a aristocracia já não é o que era, ou pelo menos, o que nos querem fazer acreditar que era! meninas como a maria que viajavam a cidade da luz para se soltar o cabelo sempre existeram e continuam a existir!era bom poder entrar no tunel do tempo e convidar a maria dar uma voltinha pelo bairro alto....... ou pelo madrid lá bem mais ao pé dela.
Imagino que poderia ser mais uma titia da alta societé e sair na Caras ou no Hola com a Lili and company.
Mas porque razão é q a maria sentia-se infeliz?
é verdade que a chuva deixa muita gente melancólica e triste, incluida a minha pessoa, mas .... para mim que esa tristeza tinha mais a ver com a procura da felicidade que não se esgota em quem ainda não a encontrou e em aqueles q julgamos um dia teremos sido felices

 
At maio 29, 2007 10:18 p.m., Blogger secret him said...

Minha querida,

a história dela é a história daqueles que procuram incessantemente a felicidade, vivem insatisfeitos, sonhando universos de sonhos, conformando-se em apenas aceitar a realidade, como passageira, como sofrimento, como dor.

Mensagem: a tua vida é esta. Vive-a!

beijos frescos
sh

 
At junho 07, 2007 8:42 p.m., Blogger /me said...

Já actualizavas o blog.

 
At junho 16, 2007 3:24 p.m., Anonymous Anónimo said...

A felicidade é capaz de ser a nossa pior droga...

 

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