Da subtileza do olhar

Acontece, por vezes, irmos absortos nos nossos pensamentos, e depararmo-nos com alguém fixado em nós.
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Acontece, outras vezes, sermos nós a reparar em alguém ensimesmado, e que tantas vezes nos atrai nessa reclusão e nessa elevação da alma.
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Há uns bons meses, ia de manhã no comboio que apanho todos os dias para o trabalho, e reparei num rapaz de olhos quietos, encostado junto da saída. Mesmo sem querer, não consegui deixar de olhá-lo, repetidamente, tentando conquistar, em triunfo, um olhar daquele rapaz. Não demorou a que olhássemos um para o outro. Olhávamos até ao limite, olhos nos olhos, e um desviava o olhar. Outra vez e outra. Ele sorria quando olhava para o lado. Eu fiquei sentado, olhando a espaços, sorrindo apenas com o olhar.
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Num momento, ele virou-se para a porta, e olhou para trás na minha direcção, com cara de pena. Saiu. Eu segui-o com o olhar, imóvel e em conflito interior.
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Arrependi-me de não ter saído, naquele dia, ao seu encontro para uma troca de palavras ou de números (de preferência 9).
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De vez em quando, ainda percorro a carruagem com os olhos na esperança de o encontrar. Levou-me a reflectir sobre a singularidade dos encontros, sobre as oportunidades que temos e sobre as linguagens subtis dos olhares. Quanto às outras considerações, o meu leitor as fará.
6 Comments:
A singulariedade somos nós que a criamos, até ser quebrada. Podias ter olhado mais uma vez e continuar tudo igual, ou pestanejado um pouco menos e mudares por completo o mundo! ;)
Adoro a teoria do efeito borboleta!
Eu também gosto desses jogos de olhares que às vezes também a mim me acontecem no comboio. Um dia a coisa chegou ao ponto do homem, que estava umas três filas à minha frente, se aproximar uma fila, de modo que ficou a olhar para mim directamente, eu acobardei-me e virei a cara, quando saí do comboio dei uma última espreitadela e ele sorriu-me. Também tenho pena de não lhe ter dito nada.
Como me parece familiar o que escreves...quantos olhares trocados...quantos olhares perdidos...
E no "saber cativar" é que estes momentos se tornam mágicos.
Jinhos
Eu penso que a magia destes momentos se deve à sua natureza intangível. Como o contacto não se concretizou, ficas-te com a recordação sublimada, manipulada pelos teus próprios desejos e pela tua fantasia.
Quantas vezes desejamos alguma coisa que, quando a obtemos, descobrimos que afinal não era para tanto?...
Mas são estas... como te diria?... "minudências", que dão tempero à vida. ;)
Felicidades!
Não acho bem que um blog tão interessante fique tanto tempo por actualizar!
;)
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