Two Worlds

Logo em pequeno, percebi que a minha casa era habitada não só pelos meus pais e pelos meus irmãos, mas por uma miríade de seres e de encantamentos. Caminhava por vezes pelo corredor, sozinho, às escuras, tentando desvendar a origem de sons e de luzes, voltando-me a deitar, ofegante, sem compreender que a par do mundo dos meus irmãos e do meu pai, existia um mundo da minha mãe, mundo esse habitado pelo sonho, pela lenda e pelos antepassados que continuavam presentes em cada momento.
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Criei desde pequeno uma compreensão muito especial com a minha mãe, herdeira de uma família onde de geração em geração, uma das mulheres nascia com sensibilidades que a colocava em contacto com o que de mais subtil há nesta existência.
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Todos ignoravam os pressentimentos da minha mãe do contacto com esse mundo. Nunca lhe ouviam contar os seus sonhos e sempre respondiam com um sorriso quando ela lhes pedia que tomassem cuidado nesse dia, sem revelar o porquê.
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Lembro-me de passar tardes com ela, a ouvir as histórias de família, encantado com os acontecimentos, com as experiências de gerações e gerações que habitaram aquele mundo de magia.
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Ainda hoje quando os visito ao fim de semana, gosto de prescrutar o que lhe vai na alma e ontem sentei-me a ouvir mais uma das suas estórias, e que aqui partilho:
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A minha bisavó que, pelas minhas contas, terá nascido cerca de 1880, era uma senhora alta, loira, de olhos claros. Era uma senhora do campo, não ricos em bens, mas respeitados por todas as redondezas.
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Vestia sempre preto e ao avental trazia, habitualmente, alfinetes presos. Quando a minha mãe nasceu, em 1944, ela ficou doente e nunca chegou a ver a neta. Pediu à sua filha (minha avó), por altura do nascimento, que lhe trouxesse uma linha com a medida exacta do bebé, linha essa que guardou consigo nos anos que lhe reservou ainda a vida.
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Certa dia, já a minha mãe tinha os seus 6 anos, e sem nunca ter conhecido a avó, virou-se para a sua mãe e disse-lhe que sabia exactamente como era fisicamente a mãe dela. Descreveu-a então e comparou-a a uma anciã que conheciam.
,,,
A minha avó confirmou, serena e profunda.
12 Comments:
Opah... Quero conhecer a tua mãe. =P
Adorei o post!
Tal mãe, tal filho! :p Seres especiais...
Beijo grande para ti, SH.
Wow!... do outro mundo... gostei =)
Ops...alguém costuma-me dizer isto...gostei bastante, muito mesmo!;) jhs.
Que feliz infância :-)
x4x_it:
O que tu precisas é de uma bruxa... não é da minha mãe :P
ouch!,
espero que se ande a portar bem :)
Marie Claire,
Obrigado, espero satisfazer os padrões de qualidade esperados :P
João Miguel,
Yeap. Muito feliz. Talvez a mais feliz de todas as infâncias.
Obrigado a todos e voltem sempre =)
Agent C.
Eu sou pouco especial, embora os amigos digam que sim. Mas a mãe sim, é muito especial :)
beijos grandes,
sh
Um história muito bonita esta. Quanto ao post em cima, não me podia identificar mais...a minha mãe aliás já fez referência...
um abraço mágico
blessed be:_)
p.s. obrigado por teres voltado ao meu eu :-)
Obrigado pelo cumprimento, thiago.
São histórias que pintamos com os melhores lápis de cera que temos :)
fez-me sorrir...
=)
Carissimo Secret Him
temos muito em comum. Ler a introdução e o caso da tua mãe fizeram-me pensar que estas coisas, os secretos companheiros sempre presente, as casas fechadas, sempre são a minha companhia mental. Convido-te a ver o meu blog, que eu farei o mesmo...
Até breve
abraços
NC
Fantastico!
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