quarta-feira, fevereiro 28, 2007

apontamento

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"Levanta-te e dança comigo, Pedro!" Pedro sentia ainda a frase a ecoar no quarto, vazio e frio, à medida que abria os olhos naquela outra manhã, de outro dia igual aos outros. O sonho estava a tornar-se repetido. Pedro assustava-se com a nitidez dos contornos da sala de baile, do brilho dos lustres, da maciez dos veludos, da valsa do Imperador e dos vestidos que pareciam voar sobre o mármore brilhante no qual se via reflectido. O mesmo rapaz aproximava-se dele e convidava-o para dançar. Pedro olhava atónito para as pessoas e reconhecia olhares à sua volta, todos eles atentos a qualquer palavra ou movimento seu.
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Pedro não sabia o significado deste sono. Com 30 anos, Pedro era o rapaz exemplar. Desde cedo, lutara com sucesso nas suas batalhas. Apesar da vontade do pai para que tivesse enveredado pela carreira militar, como ele, o seu pai e seu avô, Pedro tinha decidido romper com esses desígnios e cursara Medicina em Lisboa.
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Pedro era o sobrinho predilecto das suas tias solteiras. Foi com elas que aprendeu música, conheceu Matisse e Gaugin, leu Dante e Virgílio. Sem mais irmãos, os seus pais, com quem tinha uma relação quase contractual, viviam em Évora na pacata esperança de lhe conhecer mulher e disfrutar da doce companhia dos netos. Mas Pedro tardava em mostrar interesse por quem quer que fosse. De olhos verdes e profundos na pele morena, Pedro era um rapaz alto e de andar autoritário. O seu cabelo curto era continuado pela sombra da sua barba espessa e viril. A austera educação que tivera de seus pais, decididos a continuar a tradição militar na famíliar, tinha-lhe dado maneiras de verdadeiro príncipe. Nos gostos, no trato e na conversa. Não havia ninguém que não tivesse gostado que o jovem Pedro voltasse a Évora para lá abir o Consultório na velha barbearia do Sr. Afonso.
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Onde parava, Pedro enfrentava verdadeiras investidas das suas amigas de infância, que traziam escondidas as mais ardentes e inocentes paixões. Pedro respondia a todas com um sorriso e nobreza. Na verdade sentia alguma preocupação com os sonhos recentes que pareciam assaltar toda quietude da sua vida e perfeição do seu universo. Sentia-se velho para pesadelos adolescentes, e na verdade estes pesadelos consumiam-lhe a calma a que se habituara na sua rotina casa-consultório, consultório-casa. Nunca falou desses sonhos com ninguém. Lembrava-se do rosto do rapaz, do olhar penetrante e do calor da sua voz. Lembrava-se de sentir ardor na mão, ao sentir aquele toque masculino. Mas era apenas um sonho, mesmo que repetido e maçador.
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Pedro nunca casou. Pedro nunca deu netos aos seus pais. Pedro vestiu apenas a sua bata e enfrentou aquele dia.


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13 Comments:

At março 01, 2007 11:01 a.m., Blogger x4x_it said...

Qts de nós n sentiram já algo parecido na pele? Qts de nós n fizeram, pelo menos, uma vez na vida a vontade aos pais?
Dois atrevimentos para ele, na altura, seriam muito! Gostei.

 
At março 01, 2007 3:39 p.m., Blogger Tongzhi said...

Muito giro!

 
At março 02, 2007 3:26 p.m., Anonymous Anónimo said...

Há tantos Pedros por aí....

 
At março 02, 2007 7:44 p.m., Blogger Thiago said...

Muito interessante este texto. fiquei com vontade de ler mais.

um abraço

 
At março 02, 2007 11:43 p.m., Blogger secret him said...

Obrigado,

realmente concordo que como este existirão muitos. Qual a importância de um sonho. Até que ponto o ardor não é causado pelo sentir de algo que aos olhos dele é proíbido?! Dúvidas de Pedro..

Abraços meus para todos,
sh

 
At março 03, 2007 11:52 p.m., Blogger Mr. Placard said...

Concordo, haverá sem dúvida mtos! E se formos a pensar que o que mais há por aí são diferentes tipos de sonhos, concerteza que seremos uma grande multidão!

Adorei ler!

Hugz

 
At março 06, 2007 10:39 a.m., Blogger Anne Martens said...

Adoro-te, amigo :)
beijos!

 
At março 08, 2007 9:46 p.m., Blogger Momentos said...

Acho que conheço esse Pedro!

 
At março 12, 2007 10:41 p.m., Anonymous Anónimo said...

....não há palavras!

Obrigado por este pequeno momento de prazer!

:)

 
At março 17, 2007 12:40 a.m., Blogger ... said...

Estreante no teu blog...

Gostei do teu texto. Teve a capacidade de me fazer achar que me conhecias, que a minha vida em parte encaixava na tua ficção!!!

Voltarei!

 
At março 18, 2007 1:18 a.m., Blogger Little Tiago Boy said...

Vejo em bocadinho desse pedro dentro de mim...

Belo texto, sim sr. ;)

 
At maio 12, 2007 1:02 a.m., Anonymous Anónimo said...

uau esse pek texto levou-m ao periodo renascentista d eça d queiros... mas numa versao completamente diferente e bem mais interessante.. parabens, gostei
'é nos sonhos onde s da a realização simbólica'**

 
At maio 12, 2007 8:00 p.m., Blogger secret him said...

Obrigado! É um elogio enorme ser comparado ao grande Eça. Sem pretenções de o ser, deixei apenas como um apontamente :)

Volta sempre :)

 

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