apontamento
.."Levanta-te e dança comigo, Pedro!" Pedro sentia ainda a frase a ecoar no quarto, vazio e frio, à medida que abria os olhos naquela outra manhã, de outro dia igual aos outros. O sonho estava a tornar-se repetido. Pedro assustava-se com a nitidez dos contornos da sala de baile, do brilho dos lustres, da maciez dos veludos, da valsa do Imperador e dos vestidos que pareciam voar sobre o mármore brilhante no qual se via reflectido. O mesmo rapaz aproximava-se dele e convidava-o para dançar. Pedro olhava atónito para as pessoas e reconhecia olhares à sua volta, todos eles atentos a qualquer palavra ou movimento seu.
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Pedro não sabia o significado deste sono. Com 30 anos, Pedro era o rapaz exemplar. Desde cedo, lutara com sucesso nas suas batalhas. Apesar da vontade do pai para que tivesse enveredado pela carreira militar, como ele, o seu pai e seu avô, Pedro tinha decidido romper com esses desígnios e cursara Medicina em Lisboa.
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Pedro era o sobrinho predilecto das suas tias solteiras. Foi com elas que aprendeu música, conheceu Matisse e Gaugin, leu Dante e Virgílio. Sem mais irmãos, os seus pais, com quem tinha uma relação quase contractual, viviam em Évora na pacata esperança de lhe conhecer mulher e disfrutar da doce companhia dos netos. Mas Pedro tardava em mostrar interesse por quem quer que fosse. De olhos verdes e profundos na pele morena, Pedro era um rapaz alto e de andar autoritário. O seu cabelo curto era continuado pela sombra da sua barba espessa e viril. A austera educação que tivera de seus pais, decididos a continuar a tradição militar na famíliar, tinha-lhe dado maneiras de verdadeiro príncipe. Nos gostos, no trato e na conversa. Não havia ninguém que não tivesse gostado que o jovem Pedro voltasse a Évora para lá abir o Consultório na velha barbearia do Sr. Afonso.
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Onde parava, Pedro enfrentava verdadeiras investidas das suas amigas de infância, que traziam escondidas as mais ardentes e inocentes paixões. Pedro respondia a todas com um sorriso e nobreza. Na verdade sentia alguma preocupação com os sonhos recentes que pareciam assaltar toda quietude da sua vida e perfeição do seu universo. Sentia-se velho para pesadelos adolescentes, e na verdade estes pesadelos consumiam-lhe a calma a que se habituara na sua rotina casa-consultório, consultório-casa. Nunca falou desses sonhos com ninguém. Lembrava-se do rosto do rapaz, do olhar penetrante e do calor da sua voz. Lembrava-se de sentir ardor na mão, ao sentir aquele toque masculino. Mas era apenas um sonho, mesmo que repetido e maçador.
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Pedro nunca casou. Pedro nunca deu netos aos seus pais. Pedro vestiu apenas a sua bata e enfrentou aquele dia.
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13 Comments:
Qts de nós n sentiram já algo parecido na pele? Qts de nós n fizeram, pelo menos, uma vez na vida a vontade aos pais?
Dois atrevimentos para ele, na altura, seriam muito! Gostei.
Muito giro!
Há tantos Pedros por aí....
Muito interessante este texto. fiquei com vontade de ler mais.
um abraço
Obrigado,
realmente concordo que como este existirão muitos. Qual a importância de um sonho. Até que ponto o ardor não é causado pelo sentir de algo que aos olhos dele é proíbido?! Dúvidas de Pedro..
Abraços meus para todos,
sh
Concordo, haverá sem dúvida mtos! E se formos a pensar que o que mais há por aí são diferentes tipos de sonhos, concerteza que seremos uma grande multidão!
Adorei ler!
Hugz
Adoro-te, amigo :)
beijos!
Acho que conheço esse Pedro!
....não há palavras!
Obrigado por este pequeno momento de prazer!
:)
Estreante no teu blog...
Gostei do teu texto. Teve a capacidade de me fazer achar que me conhecias, que a minha vida em parte encaixava na tua ficção!!!
Voltarei!
Vejo em bocadinho desse pedro dentro de mim...
Belo texto, sim sr. ;)
uau esse pek texto levou-m ao periodo renascentista d eça d queiros... mas numa versao completamente diferente e bem mais interessante.. parabens, gostei
'é nos sonhos onde s da a realização simbólica'**
Obrigado! É um elogio enorme ser comparado ao grande Eça. Sem pretenções de o ser, deixei apenas como um apontamente :)
Volta sempre :)
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